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PRIMEIROS SINTOMAS
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BRILHARETES

BRILHARETES

 

BRILHARETES

(Lustrini)

de Antonio Tarantino

 

Tradução Tereza Bento

 

Um espectáculo de João de Brito e Tiago Nogueira

 

 

@ RIBEIRA

23 a 26 OUT. | 23h00

30 e 31 OUT. | 21h00 e 23h00

01 NOV. | 21h00   

 

Reservas: 961960281 / 915341974

[RIBEIRA - Rua da Ribeira Nova, n.º 44, em frente às traseiras do Mercado da Ribeira]

 

 

 

BRILHARETES - Também eu lá estive em cima, antes de ti.

 

As personagens são duas, mais uma terceira que não fala, que talvez se veja ou talvez não, que é, em todos os sentidos, uma projecção. Encontramo-las, na didascálica: há o protagonista epónimo, «Brilharetes, um ex-professor primário que optou pela vida da rua, com cerca de quarenta e cinco anos, magro e com rosto de criança»; há o deuteragonista – mas atenção: entre os dois papéis existe um equilíbrio que sucessivamente modifica ou desfaz ou consuma as respectivas funções - , «Canastro, homenzarrão rude, à volta dos cinquenta, ex-jogador de bilhar medíocre, vigarista e ladrão sem sorte»; e há «Uma sombra que passa na rua e a quem chamam Caim, na realidade: Khaìm». Mas não pode faltar, mais uma vez, o Ausente: que, neste Godot dos pobres – dois miseráveis sentados num banco, debaixo da neve, à espera – , é o director de serviço do hospital, que saca dos «comerciantes que têm um cagaço medonho de morrer e desempocham que nem banqueiros», aquele a quem vão extorquir com uma história triste, segundo “a dica” de Canastro, uma quantia proporcional à sua má consciência.

Em redor, o quotidiano tragicamente cómico de dois miseráveis pícaros: a taberna e o estábulo, a mendicidade e o roubo, o ódio, o rancor entre pobres que se vira, como em Stabat Mater.

O “inexprimível” a que Tarantino quer dar presença e voz é tudo aquilo que, dentro de nós, se agita na sombra: o universo obscuro e miserável da marginalidade e da doença, que a sociedade oculta nos mais escuros recantos da cidade e da consciência.

 

 

“Representação religiosa, mistério, via-sacra, auto sacramental… Fantasmas, fetiches, memórias enterradas (e escolares) que de repente parecem acender-se com uma nova vida, como que atingidas por um feixe de luz cruel e violenta, no momento em que se encontram e se percorrem, no palco ou nos textos, os dramas de Tarantino. Ao mesmo tempo, perante os olhos da mente materializam-se, e agitam-se no pensamento, as sombras amadas de Pasolini e de Testori: mas talvez aqui a evocação não seja tão legítima, e veremos porquê.” 

Elena de Angeli

 

 

O espectáculo foi ensaiado pela estrada fora. Realizaram-se sessões em Faro (CAPA), 11 e 12 de Fevereiro; Loulé (Casa da Cultura), 18 e 19 de Fevereiro; Setúbal (Teatro Estúdio FonteNova) 24 e 25 de Fevereiro; Montemor-o-Novo (Cine -Teatro Curvo Semedo), 26 de Fevereiro; Tavira (Teatro Al Masrah / Espaço da Corredoura), 4 e 5 de Março; Sintra (Teatro Reflexo), 11 e 12 de Março e Alcobaça (Armazém das Artes), 18 e 19 de Março. Estreou no Centro Cultural do Cartaxo a 25 de Março. Recentemente estiveram no Festival de Almada (Telheiro dos Silos) de 11 a 15 de Julho.

 

 

BRILHARETES (Lustrini) de Antonio Tarantino | Tradução Tereza Bento | Com João de Brito e Tiago Nogueira | Cenário e Figurinos Rita Lopes Alves | Luz Pedro Domingos | Assistência Joana Barros | Apoio à produção João Meireles | Um espectáculo de João de Brito e Tiago Nogueira com a colaboração de Jorge Silva Melo | Co-produção Artistas Unidos/ LAMA/ Molloy Associação Cultural

M16

 

 

Mas sabes tudo o quê? as palavras quem tem sou eu, o que é que tu pensas, que a mim me faltam as palavras? eu a esse gajo vou-lhe dar a volta com palavras, vou gozá-lo que é um mimo, vai ser uma brincadeira: vou envolvê-lo de conversas vais ver: que eu não estou acabado, tu é que não tens um pingo de confiança em mim e achas que já estou como hei-de ir.

Antonio Tarantino, Brilharetes

 

O texto está editado nos Livrinhos de Teatro (nº 22)

 

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Biografias

ANTONIO TARANTINO nascido em Bolzano em 1938, Antonio Tarantino pintor auto-didacta decide, já depois dos seus cinquenta anos e sem saber bem porquê começar a escrever textos de teatro. Os seus primeiros trabalhos Stabat Mater e Paixão Segundo João (publicados no nº11 da colecção Livrinhos de Teatro) ganharam o prémio Riccione, um importante prémio de escrita teatral. Em seguida escreveu Vésperas da Virgem Santíssima e Brilharetes (publicados no nº22 da colecção Livrinhos de Teatro). Estes quatro trabalhos que foram originalmente encenados por Charif, colaborador habitual de Tarantino acabariam por receber o prémio UBU em 1998. Escreveu Materiali per Una Tragedia Tedesca que repete a vitória do Riccione em 1997 e também a do prémio UBU já no ano 2000. Ainda em 2000 escreve Stranieri para o CSS de Udine, depois de ter realizada uma leitura do texto este nunca é representado.

Entre 2000 e 2005 escreveu A Casa de Ramallah, A Paz, Trattato di Pace, Non é che Un Piccolo Problema, os dois últimos nunca publicados nem representados, e A Coxa Vai Parir Mas o Bebé Quer Lá Saber de Nascer, integrado no espectáculo Conferência de Imprensa e Outras Aldrabices, encenado por Jorge Silva Melo, levado à cena pelos Artistas Unidos em 2004. Também pelos Artistas Unidos foi realizada uma leitura pública de A Casa de Ramallah, dirigida por João Meireles e integrada no Festival de Almada em 2004, e apresentados os espectáculos Paixão Segundo João com Miguel Borges e Américo Silva e Stabat Mater com Maria João Luís, ambos dirigidos por Jorge Silva Melo. Em 2011, os Artistas Unidos regressaram a Tarantino com a produção Brilharetes com Tiago Nogueira e João de Brito. Entretanto, Tarantino passou a ter um grande reconhecimento quer em Itália quer em França, onde é montado com regularidade. Os seus textos mais recentes são Gramsci em Turi sobre os anos de prisão do grande teórico marxista e Cara Medeia, publicados na Ubulibri.

Recentemente os Artistas Unidos editaram um Livrinho de Teatro nº 55 com traduções de Tereza Bento, A PAZ, TRATADO DE PAZ E EXÉQUIAS SOLENES.

 

Antonio Tarantino sobre Brilharetes 

Uma noite fui comprar cigarros à estação dos comboios, era bastante tarde e vi um homem a olhar fixamente para mim. Lembrava-me daquele homem, lembrava-me de o ter conhecido trinta anos antes. Ele olhava para mim com olhos de pessoa que dorme ao relento, que precisa de ajuda, e naquele momento fez-me um gesto. Queria um cigarro. Eu dei-lho e olhei para ele e perguntei: “És o Brilharetes, não és?”. E ele assentiu. Dei-lhe o cigarro, levei-o para um café e dei-lhe algum dinheiro.

Lembrei-me da história daquele homem a quem, naquela altura, todos chamavam “o poeta”. Era uma pessoa culta, uma pessoa culta que de repente… Lembro-me que, nos anos 50, me recomendou a leitura de Vadios, de Pasolini. Dirigia a biblioteca do círculo comunista Garibaldi de Turim. Depois, de repente, desapareceu de circulação. Era um homem que aparentemente podia ter sido alguém na vida.

Em suma, lembrei-me de todo um mundo que já não existe. Assim, juntando pedaços de várias vidas, cada uma diferente, consegui escrever Brilharetes.

Aprendi que os estímulos para escrever podem surgir de uma circunstância qualquer, mesmo de uma frase, de uma palavra, mas só se essa frase ou palavra se puderem ligar a outras coisas que aconteceram antes. Não é que essa palavra determine toda a peça, mas se há precedentes, se há um passado, essa palavra pode ser o pretexto que faz todo o teu dicionário vir ao de cima, todas as tuas experiências, todas as tuas coisas, as coisas que guardas em ti mesmo.

Outra coisa importante, é a iminência. Tem de haver uma iminência qualquer para fazer o teatro, qualquer coisa que tem de acontecer e tem de acontecer necessariamente.

 

João de Brito tem a Licenciatura em Formação de Actores, da Escola Superior de Teatro e Cinema. Trabalhou com Jorge Silva, José Peixoto, Joana Barros, Paulo Alexandre Lage, Cristina Carvalhal, Ávila Costa, entre outros. Com os Artistas Unidos participou em FALA DA CRIADA DOS NOAILLES QUE NO FIM DE CONTAS VAMOS DESCOBRIR CHAMAR-SE TAMBÉM SÉVERINE NUMA NOITE DO INVERNO de 1975, EM HYÉRESA FALA DA CRIADA de Jorge Silva Melo (Culturgest/Trindade).

 

Jorge Silva Melo estudou na Faculdade de Letras de Lisboa e na London Film School. Fundou e dirigiu, com Luís Miguel Cintra, o Teatro da Cornucópia (1973/79). Bolseiro da Fundação Gulbenkian, estagiou em Berlim junto de Peter Stein e em Milão junto de Giorgio Strehler. É autor do libreto de Le Château des Carpathes (baseado em Júlio Verne) de Philippe Hersant, das peças Seis Rapazes, Três Raparigas, António, Um Rapaz de Lisboa, O Fim ou Tende Misericórdia de Nós, Prometeu, Num País Onde Não Querem Defender os Meus Direitos, Eu Não Quero Viver baseado em Kleist, Não Sei (em colaboração com Miguel Borges), O Navio dos Negros, Fala da Criada dos Noailles... Compilou textos dispersos no volume Século Passado (Cotovia, 2006). Fundou em 1995 os Artistas Unidos de que é director artístico. Realizou as longas-metragens Passagem ou a Meio Caminho, Ninguém Duas Vezes, Agosto, Coitado do Jorge, António Um Rapaz de Lisboa, a curta-metragem A Felicidade e vários documentários sobre artistas.

 

Tiago Nogueira tem a Licenciatura do curso de Teatro da Escola Superior de Teatro e Cinema. Trabalhou com Dinarte Branco, Pedro Marques, João Lagarto, Paulo Lage, Jan Gomes, Sofia Cabrita, Pablo Fernando, Ávila Costa, Francisco Camacho ou Gonçalo Amorim. Com os Artistas Unidos participou em FALA DA CRIADA DOS NOAILLES QUE NO FIM DE CONTAS VAMOS DESCOBRIR CHAMAR-SE TAMBÉM SÉVERINE NUMA NOITE DO INVERNO de 1975, EM HYÉRESA FALA DA CRIADA de Jorge Silva Melo (Culturgest/Trindade).