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PRIMEIROS SINTOMAS
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NUNCA-TERRA em vez de Peter Pan

NUNCA-TERRA em vez de Peter Pan

Texto Miguel Castro Caldas | Encenação Bruno Bravo | Interpretação André Levy, Bruno Simões, Élvio Camacho, Peter Michael, Rafaela Santos, Raquel Dias, Sandra Faleiro | Música Sérgio Delgado | Cenário Stéphane Alberto | Figurinos Chissangue Afonso | Desenho de Luz José Manuel Rodrigues | Design Gráfico Tó Trips | Registo de Vídeo Edgar Feldman | Assistência de Produção Catarina Mascarenhas | Direcção de Produção Mafalda Gouveia | Produção Primeiros Sintomas

 

No comboio descendente

Mas que grande reinação!

Uns dormindo, outros com sono,

E outros nem sim nem não

Fernando Pessoa

 

Quem sou eu, quem és tu, não é questão. De onde para onde também não. O que interessa é que vamos. Mas vamos a dar a dar, ou vamos parados? As palavras voam, como o rapaz verde, e as pessoas abrem a boca para respirar, que remédio (se tiverem o nariz entupido), e às vezes saem suspiros, e outras vezes saem coisas, sapos, trapos. Às vezes fala-se tão depressa que parece o discurso do pouca-terra, pouca-terra. Pouca-terra, pca-trra pqtrr pqtrr pqtrr pqt Pqt pqt Pt pt.Pt.pt.Pt.pt.Pt

 

 

Lembro-me de ouvir o meu avô que era um velho agrónomo dizer que sentia que havia uma relação entre o pão e a guerra, e eu, que sou uma criança perante a imponência destas palavras, só me posso atrever a dizer que sinto que existe uma relação entre o pan e a terra. E daqui continuar (desculpem-me os literatos que não gostam de trocadilhos), que existe uma relação entre a guerra e a terra e entre o pan e o pão, e o panado, que é feito com pão ralado. E, já agora, disto tudo a relação mais óbvia: entre a terra e o pão. E tudo isto dito é o barulho do movimento de um comboio. As letras são as migalhas da engrenagem. Quando nos calamos as luzes apagam-se. Se voltamos a falar a luz volta a vir, e vemos que o som vem do escuro, como dizia o Beckett, e vemos que vai andando, e nós vamos lá dentro, pouca terra pouca terra, vendo a paisagem a passar pela janela. E para onde vá sou sempre eu a ir, eu que vejo a partir de mim dentro, sem outro remédio, como dizia o Borges, que vi num documentário da televisão a explicar como é que tinha ficado cego: ia a ler um livro policial no comboio, a forçar a vista, já via mal, e depois entrou num túnel, e à saída do túnel ficou a vista do Borges lá no escuro. E desde aí o túnel acompanhou-o, a qualquer parte que ele dentro dele tivesse que ir. Talvez que eu leve comigo o daqui prali se eu for daqui prali. E que traga o

prali se vier daí. Mesmo assim isto é longe do ser toda a gente e toda a parte do Álvaro de Campos. Não chega ao alentejano cortar os olhos (ou os alhos?) aos bocadinhos e espalhá-los pela terra para ter mais do que o seu corpo. O Alentejano, essa coisa que se chamou ao português que não tem terra nem pão. Alto, que este texto já se está a parecer uma cartilha qualquer que hoje irrita tanto os que mexem em tudo (mas os que hoje mexem são afinal os filhos dos que mexiam). Mas que hei-de fazer, se Pan parece tanto pão, parece tanta terra, mas terra do nunca, pão do que não cresce, tantas mães ocas, e piratas quem sabe generosos, e índios, os verdadeiros índios (que ainda havia no tempo em que foi escrito pelo J. M. Barrie, daqueles que iam atrás dos comboios nos filmes que se fizeram mais tarde), diria mesmo — se os literatos que não gostam de trocadilhos me deixassem — parece tanto o meu avô agrónomo, que já morreu, porque esta morte toda (to die will be an awfully big adventure) é a gente dizer que não quer crescer mais aqui dentro. Não chega a ninguém fazer o que quer que seja para ter mais do que o seu próprio corpo.

Miguel Castro Caldas

 

Pode ser que esta peça seja uma viagem de comboio porque as luzes assim o querem e lá vai a família — o pai, a mãe, os dois filhos (aquele que quer nascer e o que não quer) à procura da Terra do Nunca sem saberem que já lá chegaram porque a Terra do Nunca é, ela própria, o andamento do comboio. Pode ser que esta peça seja uma partitura — a partitura dos ossos das pernas que nos doem quando crescemos — em andamentos de comboio que nos separam da infância. E onde está ela, a infância? E quando crescemos o que é que cresce em nós? E neste comboio, que não é o de Barrie, pode ser que sejam eles a espreitar pelas janelas: O Peter Pan, o Gancho, a Wendy, o Smee, o casal Darling e os filhos mais a Nana e os índios.

Bruno Bravo

 

Classificação Etária: M/ 12 anos

Estreia Pequeno Auditório da Culturgest | 15 de Setembro de 2005

Reposição Teatro da Comuna - sala Novas Tendências | 7 de Julho de 2006